Quando fotografar futebol é também saber jogar com os olhos
Ousadia e alegria. Duas palavras que, pra mim, traduzem muito da essência de Neymar dentro de campo. Mais do que características de seu futebol, representam uma maneira de jogar, de desafiar o previsível e de transformar uma jogada aparentemente comum em algo inesperado. Nesta fotografia, acredito ter conseguido capturar justamente isso: não apenas um movimento plástico e tecnicamente incomum, mas uma expressão da personalidade de um dos jogadores mais imprevisíveis de sua geração.
O registro foi feito em 15 de novembro de 2025, na lendária Vila Belmiro, a Casa do Rei Pelé, durante o clássico entre Santos Futebol Clube e Palmeiras, válido pelo Campeonato Brasileiro. Em uma partida carregada de rivalidade e significado, o Santos saiu vitorioso por 1 a 0. Mas o que me interessa particularmente nesta imagem não é apenas o contexto esportivo em que ela foi produzida. É a possibilidade de eternizar um instante que talento, irreverência, movimento e expressão se encontram
A chamada carretilha, como muitos conhecem esse recurso técnico, ganha outra dimensão quando executada por um jogador como Neymar, em um clássico dessa magnitude. Há uma dose de ousadia no gesto, uma liberdade de criação que desafia a lógica convencional do jogo. E existe algo de profundamente artístico nessa capacidade de improvisar, de surpreender e de transformar o futebol em espetáculo.
Foi essa essência que procurei fotografar.
Fotografar Neymar é também antecipar o imprevisível.
Existe uma diferença importante entre acompanhar uma jogada e antecipar o instante em que ela se torna uma imagem significativa.
No futebol tudo acontece em frações de segundo. A bola muda de direção, os espaços desaparecem, os marcadores reagem e os jogadores tomam decisões em velocidades difíceis de acompanhar. Com Neymar, essa dinâmica ganha uma camada adicional de imprevisibilidade. Seu talento permite que uma jogada siga caminhos que, até instante antes, pareciam improváveis.
Para o fotógrafo posicionado à distância, esse comportamento representa um desafio particular. Não basta manter o jogador dentro do enquadramento e disparar a câmera quando algo acontece. É preciso compreender o jogo, interpretar os movimentos, observar a postura corporal, reconhecer as possibilidades e tentar antecipar o que ainda não se concretizou.
É nesse ponto que encontro uma das maiores semelhanças entre fotografar futebol e jogar futebol.
Um camisa 10 não participa do jogo apenas reagindo ao que acontece. Ele também enxerga espaços, lê movimentos e imagina possibilidades antes que a jogada se desenvolva por completo. De certa forma, procuro exercer essa mesma inteligência dentro do campo fotográfico. Preciso pensar o jogo, construir hipóteses visuais e estar preparado para aquilo que ainda não aconteceu.
A diferença é que meu instrumento não é a bola. É a câmera.
E, assim como acontece com o jogador, antecipar não significa ter certeza. Significa estar preparado para reconhecer a oportunidade quando ela surgir.
O instante decisivo não espera
Henri Cartier-Bresson compreendeu que a fotografia tem uma relação singular com o tempo. Sua ideia do instante decisivo está associada à capacidade de reconhecer o momento em que os elementos de uma cena se organizam de maneira expressiva, formando uma imagem que dificilmente se repetirá da mesma forma.
Essa compreensão acompanha meu trabalho.
O instante decisivo não é simplesmente o momento em que alguma coisa acontece. É aquele em que o acontecimento, a composição, o gesto e o significado se encontram.
Nesta fotografia, o movimento de Neymar, a suspensão do corpo, a disposição dos adversários e a presença da torcida compõem uma narrativa que vai além da execução técnica de uma jogada. Há tensão, leveza, desafio e uma espécie de liberdade corporal que contrasta com a rigidez competitiva do ambiente.
O jogador parece suspenso por um instante, enquanto os adversários tentam compreender e responder ao movimento. A cena contém a energia do futebol, mas também uma dimensão estética que permite observá-la para além do resultado imediato.
É justamente essa possibilidade que me interessa na fotografia esportiva: encontrar, dentro do caos aparente de uma partida, uma organização visual capaz de contar uma história.
Entretanto, reconhecer o instante decisivo exige mais do que reflexos rápidos. Exige repertório, concentração, experiência e, sobretudo, presença.
Minha escolha é estar inteiro no jogo
Vivemos um período que a tecnologia permite transmitir e publicar imagens praticamente em tempo real. A velocidade tornou-se um diferencial competitivo, e a produção de conteúdo passou a ser pressionada pela necessidade de alimentar plataformas, acompanhar tendências e chegar primeiro.
Compreendo as exigências do mercado e reconheço a importância da agilidade no fotojornalismo. A rapidez tem seu lugar, especialmente quando a notícia exige imediatismo.
O problema começa quando a velocidade deixa de ser uma ferramenta e passa a determinar a maneira como fotografamos.
No meu trabalho, faço uma escolha consciente: durante a partida, minha prioridade é observar o jogo e fotografar. Não quero dividir minha atenção entre a cena que está acontecendo diante de mim e tarefas paralelas de edição, seleção ou envio de arquivos.
Enquanto a bola rola, quero estar ali inteiro.
Essa decisão não é uma recusa à tecnologia, muito menos uma tentativa de idealizar o passado. É uma convicção sobre o que considero essencial para exercer meu ofício com qualidade. Se a fotografia nasce da observação, não faz sentido comprometer essa observação justamente quando o acontecimento está em movimento.
Se eu tivesse concentrado em editar e transmitir imagens durante aquela partida, com certeza teria perdido esse lance. E no futebol a oportunidade não avisa quando vai chegar.
Por isso, prefiro selecionar e editar minhas fotografias com atenção que elas merecem depois do jogo. Meu compromisso não é produzir a maior quantidade de arquivos no menor tempo possível. É entregar imagens que justifiquem o tempo dedicado a encontra-las, realiza-las e trabalha-las.
Contra a imagem descartável
A fotografia digital ampliou extraordinariamente as possibilidades de produção e circulação de imagens. Nunca foi tão fácil fotografar, compartilhar e alcançar pessoas. Ao mesmo tempo, a abundância trouxe uma questão importante: o que faz uma imagem permanecer relevante depois de ser publicada?
Muitas fotografias cumprem sua função imediata, informam o resultado de uma partida, registram uma comemoração ou ilustram uma notícia. Essa função é legítima e necessária. Mas acredito que a fotografia também pode oferecer algo além do registro factual.
Pode provocar uma segunda observação. Revelar uma dimensão que passou despercebida. Criar memória. Despertar emoção. Fazer com que alguém volte à imagem depois de o jogo terminar.
É nesse território que procuro desenvolver minha autoria.
Não quero que uma fotografia tenha valor apenas porque foi publicada primeiro ou porque alcançou determinado número de visualizações. Quero que ela tenha força para continuar dizendo alguma coisa quando a notícia já deixou de ser novidade.
Chamo atenção para isso porque acredito que a velocidade de publicação, quando tratada como prioridade absoluta, pode comprometer a profundidade do olhar e a qualidade do conteúdo. O problema não é publicar rapidamente. É permitir que a urgência substitua a observação, a intenção e o pensamento fotográfico.
Uma imagem não precisa ser lenta para ser profunda. Mas o fotógrafo precisa ter liberdade para olhar, interpretar e decidir, em vez de trabalhar permanentemente condicionado pelo próximo envio.
A fotografia que me interessa não termina no instante em que o obturador é acionado. Ela continua na escolha, na edição, na composição final e na história que é capaz de contar.
Fotografia esportiva também é linguagem artística
A escolha pelo preto e branco nesta imagem reforça minha intenção de conduzir o olhar para aquilo que considero essencial: o gesto, a luz, as expressões corporais, a relação entre os jogadores e a composição da cena.
Não se trata simplesmente de retirar as cores. Trata-se de construir uma leitura visual.
O contraste entre o uniforme claro de Neymar e os adversários em primeiro plano ajuda a organizar a atenção. A presença da torcida ao fundo amplia a dimensão coletiva do espetáculo, enquanto o gramado e a placa publicitária estabelecem o espaço em que o movimento acontece.
Os adversários não são apenas elementos secundários. Eles ajudam a contar a história. Suas posturas revelam tensão do confronto e tornam mais evidente a ousadia do gesto. A torcida, por sua vez, lembra que aquele movimento acontece diante de milhares de olhares, em um clássico no qual cada detalhe carrega significado.
A fotografia esportiva tem essa capacidade extraordinária de reunir força física, emoção, técnica, geometria, luz e movimento em uma única imagem. Quando encontro a combinação certa desses elementos, o registro ultrapassa a função documental e se aproxima da linguagem das artes visuais.
O futebol continua sendo futebol. Mas a maneira como o enxergamos pode transformá-lo em uma experiência estética.
É nesse encontro entre esporte e arte que reconheço uma parte importante da minha identidade como fotógrafo.
“Transformar movimento em memória, gesto em narrativa e futebol em arte”